25 de novembro de 2005

O Clube de Cinema de Coimbra na revista Visor, 1953

Reproduz-se, de seguida, um artigo publicado no n.º 4 da revista Visor, de 25 de Julho de 1953, sobre o Clube de Cinema de Coimbra, a sua vida e os seus problemas.

Na sua simplicidade, este artigo tem a dupla curiosidade de, por um lado, ser publicado numa revista considerada como sendo próxima do regime salazarista (o seu autor é, muito provavelmente Fernando Duarte, director da revista e dirigente do Cine-Clube de Rio Maior, com quem os restantes Cine-Clubes entrariam em acesa polémica a propósito da Federação Portuguesa de Cine-Clubes com que o regime procuraria controlá-los), e de, por outro, referir-se a um cineclube que só à custa de muitos equilíbrios conseguiria sobreviver, principalmente se tivermos em conta a sua maior proximidade com os círculos oposicionistas ao regime, proximidade que no caso de alguns dos seus membros viria já desde os tempos do Círculo de Cultura Cinematográfica, extinto em 1947/48 pela PIDE.

Finalmente, tratando-se do cine-clube da cidade universitária onde se tinham formado, e se continuariam a formar, muitos dos quadros do Estado Novo, é também interessante pela denúncia implícita, feita por Júlio Sacadura, da falta de cultura cinematográfica dos estudantes, assim como dos preconceitos e das resistências da Universidade em aceitar o cinema como fenómeno cultural...

 

Clube de Cinema de Coimbra. Sua vida e seus problemas
In Visor, ano I, n.º 4, 25 de Julho de 1953, p. 10.

 

O Clube de Cinema, da cidade universitária, nasceu no dia 2 de Abril de 1949, graças ao interesse que a Sétima Arte merecia dos estudantes de Coimbra e à carolice de Ruy Barbosa, Júlio Sacadura e José Carlos Cardoso. Com a formatura e afastamento consequente do primeiro, passou o Clube de Cinema a ser dirigido por Júlio Sacadura, que é ainda o seu actual presidente. O Clube de Cinema de Coimbra, integra-se na definição internacional de Cine-Clube e as suas sessões culturais seguem a linha geral das dos diversos congéneres portugueses. Nas suas primeiras sessões, o Clube de Cinema exibiu: «Carnet de Baile» (1937) de Duvivier; «O Mundo a seus pés» (1941) de Orson Welles; «Hotel do Norte» (1938) de carné; e «Raparigas de Uniforme» (1912) de Leontine Sagan. Nas suas trinta sessões já realizadas, notam-se ciclos dedicados ao CINEMA FRANCÊS (Carnet de Baile, Re- gresso Eterno, Trovadores Malditos, Hotel do Norte, Sinfonia Pastoral, Último Milionário, O Silencio é de Ouro, Sílvia e o Fantasma, Mataram o Pai Natal e O Crime da Avenida Foch), ao CINEMA INGLÊS (Henrique V, Hamlet, Grandes Esperanças, Oliver Twist, Breve Encontro, Pigmaleão e Passaporte para o Paraíso), a Charles Chaplin (Charlot Boémio e curtos diversos, Memórias de Charlot e Festival de Charlot, Luzes da Cidade e A Quimera do Oiro), ao CINEMA AMERICANO (O Mundo a seus pés, A Vida é um sonho, Rainha Cristina e Dumbo), ao CINEMA ALEMÃO (D. Quixote, de Pabst, Raparigas de Uniforme e Rembrandt, de Hans Steinhoff), e, finalmente, ao CINEMA ITALIANO (Dois dias fora da vida e Sonhando pelo caminho). Tem o Clube de Cinema, dado o seu contributo para a divulgação de bons documentários e assim tem exibido, entre outros, «Nascimento do Cinema», «Destroços», «Água e Aço» e «Douro, faina fluvial». As sessões realizam-se no cinema Sousa Bastos e o número actual de sócios é de 500. Alguns filmes foram precedidos de palestras proferidas por Ruy Barbosa, Rui Vieira Miller, Luís Neves Real, Domingos Mascarenhas, F. Goncalves Lavrador, Mário Bonito, José Viqueira e outros. A prática aconselhou-a abandoná-las, pelo dispêndio económico que acarretavam e porque se verificou serem de pouca influência devido ao seu carácter oral. Beneficiaram, assim, o aspecto dos programas, elaborados com bom critério e também enriquecidos por folhas suplementares de divulgação da estética e técnica cinematográfica. Para vencer todas as dificuldades que se levantam à vida do Clube de Cinema de Coimbra, entre elas avulta a cedência de sala, têm os dirigentes demonstrado aptidões dignas de elogio. Hoje, reina interesse no ambiente universitário coimbrão pela Arte das Imagens e o Clube de Cinema anuncia, mesmo, a criação de uma biblioteca a que dará o nome de Ruy Barbosa, homenagem ao seu primeiro presidente, já falecido. Não quis «VISOR» encerrar esta pequena nota sobre o Clube de Cinema de Coimbra, sem que o seu presidente sr. Dr. Júlio de Albuquerque Sacadura, nos fizesse a seguinte declaração: «O cinema, como nova forma de expressão artística, possui hoje uma importância que Só encontra paralelo na literatura. Todo aquele que se diga ou queira tornar-se um homem culto, não pode deixar de conscienciosamente «ver» cinema. Um velho preconceito contra o cinema, derivado de anacrónicas fórmulas, tem levado à omissão do seu estudo nas estéticas, histórias da arte e livros de cultura artística geral Por isso o Clube de Cinema de Coimbra, actuando num meio universitário, onde é recrutada a maioria dos seus sócios, tenta preencher essa lacuna, colocando ao alcance de todos os meios necessários para uma formação cinematográfica consciente». Uma mais larga expansão do Clube de Cinema daria, pois, a Coimbra um também mais amplo estudo dos problemas da Sétima Arte, interessando um maior número de universitários e criando, consequentemente, uma nova geração mais esclarecida.

 

 

  

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