3 de janeiro de 2006

Clube de Cinema de Coimbra e a PIDE (Parte I)

Reproduzimos, de seguida, a primeira parte de um excerto do Prefácio da obra de Orlando de Carvalho, Escritos. Páginas de Intervenção - I, Coimbra, Livraria Almedina, 1998, em que o autor, Presidente do Clube de Cinema de Coimbra entre 1960 e 1963, activista político e, mais tarde, ilustre Professor na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, recordava um curioso episódio, ocorrido em 1960, que levaria à (breve) detenção de vários dirigentes cineclubistas.

 

Clube de Cinema de Coimbra e a PIDE (parte I)

«Com um breve intervalo para a mímica de Marceau (que artista genial!), o convite para vice-Presidente da Assembleia Geral do Clube de Cinema de Coimbra, cujo Presidente de Direcção, Júlio Sacadura, estava havia anos em Lisboa, esse convite que me foi dirigido pelo meu grande Amigo e inesquecível homem de Ciência, Luís de Albuquerque, fez-me entrar em 1959 no movimento cineclubista, onde o C. C. de Coimbra, a par do Cineclube do Porto, dirigido por Alves Costa, e com o Imagem e o Cineclube Universitário de Lisboa, onde conheci o Fonseca e Costa, o Alberto Vaz da Silva, o Seixas Santos, etc., desenvolvia uma luta permanente contra as estruturas do Estado Novo e a Secretaria de Estado da Cultura, que impedia toda a expansão e difusão do grande cinema não cúmplice. Com a técnica das homologações, com a reserva da cinemateca aos apaniguados e amigos, com a organização de um cineclubismo paralelo e dócil, se não conivente, em que apareciam nomes que vieram a ocupar lugares-chave, surpreendentemente, depois do 25 de Abril, com a difícil disponibilidade de salas de espectáculos, com os preços dos alugueres de películas, etc., etc., a luta do cineclubismo livre era terrível, se não desesperante. E não era apenas o cinema de combate (e houve-o, deveras, no tempo do maccarthysmo), mas todo o cinema não imediatamente rendível, ou havido como tal, que não chegava aos espectadores. Lembro Les anges du péché e Les dammes du Bois de Boulogne, de Bresson, o Fugiu um condenado à morte, do mesmo metteur-en-scène, o Buíluel, o Eisenstein, o Pudovkin. Na curta-metragem era o Resnais de Nuit et Brouiilard, por exemplo. As lutas do movimento académico em Lisboa e Coimbra, desde 1960, tornaram as dificuldades do cineclubismo ainda maiores. Se o C. C. de Coimbra nunca teve a Direcção homologada desde que eu fui eleito Presidente da Direcção em 1960 — pois a assinatura de um manifesto, a exigir um inquérito à PIDE, fizera-me persona non grata e objecto de um processo político, com apreensão do passaporte ainda antes do julgamento, processo amnistiado com a celebração do Centenário do Infante D. Henrique, mas esse obstáculo torneou-se sem resposta, porque os estatutos do CCC atribuíam a competência ao ME e a lista directiva era enviada sempre para este, que a devolvia à SEC, e, neste vai e vem folgavam sempre as costas do Clube, no mesmo ano de 1960 houve uma cena caricata que levou a PIDE de Coimbra ao rubro.»

(a continuar...)

Paulo Granja na secção Biografias | Documentos | Imprimir | Enviar | Comentar (0) | TrackBack (0)