2 de janeiro de 2006
«A História do maior clube de Cinema Português»
Continuamos a destacar o Clube Português de Cinematografia - Cine-Clube do Porto, desta vez com a reprodução do artigo «Cine-Clube do Porto. A História do maior clube de Cinema do Porto», publicado no n.º 2, de 25 de Maio de 1953, da revista Visor.
Cine-Clube do Porto
A História do maior clube de Cinema Português
O Clube Português de Cinematografia, hoje conhecido por Cine-Clube do Porto, foi fundado no dia 13 de Abril de 1945. A sua actividade e o seu número de sócios começou por ser modesto. A primeira sessão cultural foi preenchida com filmes portugueses de amadores e pelo «Fausto» (1926), clássico expressionista alemão, realizado por Murnau, com Emil Jannings (Mefistófeles), o sueco Gosta Ekman (Dr. Fausto) e Camila Horn. Em sessões seguintes foram exibidos «Espiões» (1929) de Fritz Lang; «Variedades» (1925) de Edwald André Dupont; fragmentos de filmes de Chaplin; «A Estrada que conduz ao Céu» (1942) de Alf Sjoberg; «A Lenda de Gosta BerIing» (1923) de Mauritz Stiller; «Um Sonho de uma Noite de Verão» (1935) de Max Reinhardt e William Dieterle; «Sinfonia de uma capital» (1927) de Walter Ruttman; «O Gabinete do Dr. Caligari» (1919) de Robert Wiene; «Metropolis» (1927) de Fritz Lang; «A Roda» (1921) de Abel Gance.
Em 1947 o Cine-Clube do Porto iniciou - o estudo da obra de Marcel Carné, seguindo-se uma análise aos filmes de Orson Welles, como nunca se havia feito em Portugal. Estudados foram também Desenvolvidamente, Fritz Lang, Charlie Chaplin, Rosselini, René Clair e John Ford e dedicada atenção à obra de Lawrence Olivier, Edward Dmytrik, Carol Reed, Jean Renoir, David Lean, Clouzot, Christian Jacque, Walt Disney, Pabst, Duvivier, Capra, Becker, Ben Hecht, Blasetti, Zampa, Germi, Lattuada, Cocteau. Frank Borzage, Emílio Fernandez, Billy Wílder, De Sica, etc., etc..
Elaborados programas com textos dos maiores nomes da crítica de todo o mundo, revelados assim pela primeira vez na nossa língua, a obra cultural do Cine-Clube do Porto evoluiu a um ponto alto no conceito internacional. Jean Debrix classificou-o «o mais importante cine-clube do mundo». Em Paris, em Londres, em Roma, o Cine-Clube do Porto granjeia já merecida fama.
A par dos programas são elaboradas também palestras que revelaram uma plêiade de críticos, hoje conceituados pelos nomes de Alves Costa, F. Gonçalves Lavrador, Manuel de Azevedo, António Brochado, Neves Real, Júlio Gesta, Mário Bonito, Celestino Carneiro, Guilherme Ramos Pereira, Fernando Condesso e tantos outros.
A edição dos cadernos «Projecção» foi medida bastante acertada num país em que, praticamente, não existe bibliografia cinematográfica. Publicou já «Modernas tendências do cinema europeu», «Charlie Chaplin» e «Perspectiva do cinema português».
Iniciou também a publicação, em folhas soltas, de uma «Iniciação à técnica e estética cinematográficas».
A biblioteca do Clube é hoje, com a da Cinemateca Nacional, as duas mais completas do País. Aí se guardam e coleccionam todas as revistas antigas e modernas e uma verdadeira riqueza em livros da especialidade, em todas as línguas. Têm arquivadas e assinam as revistas de altos estudos «Bianco e Nero» e Filmcrítica» (italianas); «Cahiers du Cinéma», «Raccords», «L’Àge du Cinéma» e «Cine-Club». (francesas); «Sequence» e «Sight & Sound» (inglesas); e «Revue Internationale du Cinema» (belga).
Na sua cinemateca privativa existem cópias de «O Gabinete do Dr. Caligari» e doutros filmes. Adquiriu uma cópia de «Maria do Mar», com a qual foi estudada certa faceta do nosso cinema, a quem dedicou também sessões com «Canção da Terra» e «Douro, faina fluvial».
Em 1947, O Cine-Clube do Porto contava 83 sócios; em 1948, 868; em 1949, 1.236; em 1950, 1.741; em 1952, 2 500; e agora cerca de 3.000 associados.
A sua sede está actualmente instalada no 7.º andar do n.º 267 da Praça de Sídónio Pais, no Porto. As suas sessões (quase a atingir 150) realizam-se periodicamente nos cinemas Batalha e Àguia d’Ouro.
E toda a sua orientação se baseia nestes sete pontos principais: 1.º — Defender e impulsionar o cinema português; 2.º — Divulgar a cultura cinematográfica entre o grande público e contribuir com o seu esforço para uma alta cultura cinematográfica em Portugal; 3.º — Defender o cinema como Arte e como Linguagem; 4.º — Divulgar as obras mais representativas da 7.ª Arte; 5.° — Proteger o desenvolvimento do filme experimental; 6.º impulsionar e auxiliar o cinema didáctico nos estabelecimentos de ensino portugueses; e 7.º — Colaborar com todos os cine-clubes de características idênticas em prol do cinema.
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