16 de fevereiro de 2006
Fernando Gonçalves Lavrador
Junto reproduzimos a biografia de Fernando Gonçalves Lavrador elaborada pela ADERAV no âmbito do ciclo de homenagens que está a preparar em sua memória. Aqui ao lado, reproduzimos um retrato de Fernando Lavrador, da autoria de Abel Salazar, desenhado quando aquele tinha cerca de 16 anos, e que se encontra na Exposição patente até ao dia 26 no Teatro Aveirense. Esperamos poder, em breve, acrescentar mais alguns elementos à biografia de Fernando Lavrador no que diz respeito à sua actividade como cineclubista.
(Fonte: Quem Foi Fernando Lavrador? ADERAV; O retrato é aqui reproduzido com a autorização da família de Fernando Lavrador).
Quem Foi Fernando Lavrador?
Fernando Gonçalves Lavrador
Nome Literário: F. Gonçalves Lavrador
Nome Completo: Fernando Gonçalves dos Santos Ferreira Lavrador
Nasceu a 13 de Março de 1928, no Porto (freguesia de Paranhos)
Filho de Manuel Ferreira Lavrador e de Maria José dos Santos Lavrador
A paixão pelo Cinema
Desde cedo se interessou por tudo o que se relacionasse com a cultura e com a arte.
Aos cinco anos de idade já assistia a espectáculos culturais de teatro e ópera, (alguns pelos bastidores) revelando ao seu pai o maior interesse.
Foi aluno no Liceu Alexandre Herculano e aí se relacionou com outros estudantes com os quais colaborou na fundação do Clube Português de Cinematografia, mais tarde também designado por Cineclube do Porto, que se viria a transformar num dos mais importantes cineclubes portugueses e do qual foi dirigente durante vários anos, sendo à sua morte sócio honorário deste Cineclube.
Foi também dirigente e colaborador do Clube de Cinema de Coimbra. Mais tarde, colaboraria com o Cineclube de Aveiro (numa tentativa de ressurgimento deste Cineclube), sendo ainda um dos fundadores e dos dirigentes da Cooperativa de Cinema “Grande Plano”, de Aveiro, infelizmente já extinta.
Concluído o curso liceal, ingressou, como aluno, na Universidade do Porto (Faculdade de Ciências e Faculdade de Engenharia), onde obteria, no ano escolar de 1953-54, a licenciatura em engenharia electrotécnica.
A sua carreira dividiu-se por duas actividades distintas: a de ensaísta (sobretudo no campo da semiótica e da filmologia) e a de engenheiro electrotécnico, de telecomunicações, de teletráfego e de telefiabilidade...
Como Engenheiro Electrotécnico
Como engenheiro electrotécnico, depois dum estágio na EFACEC, especializou-se em telecomunicações e trabalhou em estudos de comutação telefónica automática e de teletráfego no GECA (Grupo de Estudos de Comutação Automática), organismo pertencente à Direcção dos Serviços Técnicos dos C. T T.
A partir de 1964 trabalha no Gabinete de Estudos da Fábrica de Motores Eléctricos Rabor (Ovar) e, posteriormente, é engenheiro-chefe dos Serviços de Manutenção de Instrumentos e de Equipamentos de Controle Pneumáticos, Eléctricos e Electrónicos da Companhia Portuguesa de Celulose, mais tarde Portucel (Fábrica de Cacia).
Por fim, no início dos anos oitenta, regressa aos C. T T , mais tarde transformados em Portugal Telecom, ingressando no Centro de Estudos de Telecomunicações (C. E. T), organismo que herdou as tradições do antigo G. E. C. A. Aqui, dedicou-se à continuação dos seus estudos de teletráfego (agora ampliados às novas aplicações em computadores e nas redes de dados) e ao início do estudo da engenharia de telefiabilidade. Neste campo de actividade, publicou alguns livros e muitos textos de apoio às suas palestras e lições especializadas bem como artigos de natureza técnica nas revistas “Electricidade”, “Boletim da Ordem dos Engenheiros” e “Telecomunicações”.
O Ensaísta
No âmbito da sua actividade de ensaísta, proferiu palestras em sessões dos Cineclubes atrás referidos, do Círculo Cultural do Porto, da Associação Fotográfica do Porto, do Cineclube de Santarém, da série “Gente de Cinema Fala de Filmes” (no Cinema Império, em Lisboa), etc.
Espalhou colaboração por vários jornais e revistas como “Sol”, “Portucale”, “Vértice”, “Via Latina”, cadernos de cinema “Projecção”, revistas “Cineclube”, “Cinema” “Cinema Novo”, “Visor” e “Celulóide”, Suplemento de Cultura e Arte de “O Comércio do Porto” e página “Tela e Palco” do mesmo diário, etc. e no programa radiofónico “Vamos Falar de Cinema”, aos microfones da antiga emissora local Rádio Porto. Destes trabalhos, deve-se salientar o ensaio “Eisenstein, Montagem Clássica e Complexo Arte-Linguagem”, publicado na revista “Vértice” (Vol. XII, n° 103, de Março de 1952), a análise detalhada do filme “O Recado” de José Fonseca e Costa também publicada na 'Vértice” (nº 374-375, de Março-Abril de 1975) e re-publicada mais tarde no Catálogo do 3° Festival de Cinema dos Países de Língua Oficial Portuguesa (6 a 14 de Maio de 1988), organizado em Aveiro pela Cooperativa “Grande Plano”, e os artigos escritos para a colectânea “Iniciação à Técnica e Estética Cinematográficas” (que coordenou e de que saiu apenas o primeiro caderno por razões estranhas ao coordenador) editada pelo Clube Português de Cinematografia, Porto, 1954 (o caderno publicado incluía também textos de Umberto Bárbaro, Georges Sadoul, Henri Poincaré, Roman Ingarden, Luigi Chiarini e Louis Daquin).
De 1947 a 1954, escreve algumas sinopses, cenários literários e até planificações completas de filmes que nunca chegarão a concretizar-se na tela devido à falta de viabilidade da produção filmica (sobretudo a independente e de raiz democrática) no Portugal salazarista. Inicia também um ensaio sobre “Fritz Lang, o Artista e a sua Escola”, destinado a publicação nos cadernos “Projecção”. (editados pelo Clube Português de Cinematografia) mas que nunca chegou a acabar por entretanto se ter afastado de toda a actividade cineclubista e, mais tarde, mesmo de toda a actividade de ensaística filmológica (interrupção que duraria à volta de 12 anos).
Em 1953 e 1954 ainda tem tempo para escrever o seu primeiro ensaio de grande fôlego “Justificação Estética do Cinema”, que seria publicado vinte anos mais tarde (em 1974, pela Plátano Editora, de Lisboa, depois de actualizado com um Prefácio e dois importantes Apêndices). Neste livro, Lavrador procurava não só divulgar, entre nós, as ideias e os estudos de Gilbert Cohen-Séat, de Étienne Souriau e dos principais ensaístas do grupo da filmologia da Sorbonne, mas também apresentar as suas próprias ideias originais sobre os fenómenos fílmicos e cinematográficos - ideias bastante fecundas quer no campo da semiótica fílmica, quer no campo muito mais extenso da semiótica geral que, daqui em diante, o começa a interessar cada vez mais. É assim que surge a noção de “complexo de conceitos”, que alarga e enriquece a noção de “tectónica dos conceitos”, introduzida por Abel Salazar no campo da estética, e que conduz naturalmente às noções básicas essenciais de complexo significante-significado, complexo expressante-expressado e complexo expressão-significação (ou arte-Iinguagem). De facto, este ensaio constitui, sem dúvida, a base a partir da qual se desenvolverá toda a obra ensaística e de crítica, bastante profunda e original, de F. Gonçalves Lavrador no campo da semiótica.
Em 1967, regressa à actividade ensaística no campo da semiótica, depois de 12 anos de meditação sobre o assunto, e continua, dentro dum meio muito hostil e já sem o entusiasmo da juventude, os estudos anteriores, evoluindo agora para uma análise de todos os aspectos estético-linguísticos (ou semióticos) dos fenómenos fílmicos e cinematográficos (distinção de Cohen-Séat que adopta em todos os seus trabalhos), considerados na sua essencial pluralidade e na unidade das obras, bem como numa perfeita integração na semiótica geral, tudo a partir duma base de natureza primária (ou hilética), sempre presente (quer se queira, quer não) e integrando-se na actual corrente de ideias sobre estes assuntos. Sem dúvida que os seus estudos de semiótica filmica constituem algo de insólito no panorama cultural português e atingem um nível verdadeiramente internacional, dificilmente verificável dado o desconhecimento da língua portuguesa por parte dos intelectuais estrangeiros que se interessam por estes temas. Aliás os seus livros (todos eles) são escritos num português exemplar que muito contribui para o enriquecimento da nossa língua materna.
Participou, em Outubro de 1970, no Primeiro Congresso Nacional de Cinema Não-Profissional, do qual foi eleito Presidente e em que apresentou uma comunicação. Fez parte também de Júris de diversos festivais de cinema profissional e não-profisssional.
Organizou a Retrospectiva “Cinema Português e Literatura” no XII Festival Internacional de Cinema da Figueira da Foz, para cujo programa escreveu propositadamente um texto.
Enviou uma comunicação ao 2° Congresso de Escritores Portugueses (realizado em Lisboa, em Março de 1982) sobre “As Funções e os Métodos da Ensaística como Género de Literatura”. Orientou alguns colóquios sobre cinema, nomeadamente sobre as obras de Roman Polanski, de Joseph Losey e de José Fonseca e Costa (“O Recado”).
Proferiu uma conferência, seguida de colóquio, sobre “O Cinema na Idade da Informática”, em 1996, a convite da Sala de Estudos Cinematográficos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Anteriormente, tinha proferido duas lições (sobre “O Ritmo Cinematográfico” e sobre “A Continuidade na Composição Fílmica”), num curso organizado pelo Centro de Estudos Cinematográficos da Associação Académica de Coimbra, uma lição (sobre “Linguagem Cinematográfica. Generalidades”) integrada num curso promovido pelo Clube Português de Cinematografia e ainda três lições (sobre “Linguagem Cinematográfica”, “Estética do Cinema” e “Filmologia”) no Primeiro Curso Intensivo de Iniciação ao Cinema integrado no 9° Festival Internacional de Cinema de Santarém.
Participou em vários outros festivais, de que são exemplo: Figueira da Foz, Berlim e Moscovo.
Após o 25 de Abril de 1974, foi escolhido pelo MDP (Movimento Democrático Português) de Aveiro para director-adjunto do semanário antifascista local “Libertação”.
Mais tarde, em 1996, foi agraciado pela Câmara Municipal do Porto, no âmbito das Comemorações dos 100 Anos do Cinema Português, com a Medalha de Ouro de Mérito Cultural daquela Câmara, pela “obra ímpar que realizou no campo do estudo da semiótica do cinema”.
Durante a década de 90 publicou no semanário de Aveiro “Litoral” uma série de artigos sob a epígrafe “Reflexões dum Marginal”.
Em Março de 1998, ao atingir os setenta anos, passou à situação de aposentado da Portugal Telecom (Centro de estudos de Telecomunicações) e passou a colaborar, como trabalhador independente, no Instituto de Telecomunicações, pólo de Aveiro. Também nos últimos anos de efectividade na PT e nos primeiros anos de aposentação deu a disciplina de Engenharia de Teletráfego em dois Mestrados em Redes e Serviços de Telecomunicações na Universidade de Aveiro.
Era sua intenção publicar em livro os “Pensamentos dum Marginal”, acrescentados com preâmbulo e reflexões epistemológicas.
Morreu a 20 de Agosto do ano de 2005, na cidade onde nasceu.
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Pathé-Baby Portugal, L.da
Anúncio de 1944 da Pathé-Baby Portugal, L.da, empresa a quem os cineclubes, e muito particularmente, o Belcine, Clube da Parede, e o Clube Português de Cinematografia/Cineclube do Porto muito ficariam a dever (fonte: Objectiva, ano V, n.º 57, Julho de 1944, s.p.)
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8 de fevereiro de 2006
Transformações Estruturais do Campo Cultural Português, 1900-1950
Foi lançado no passado dia 3, o livro, coordenado por António Pedro Pita e Luís Trindade, que corresponde ao primeiro número da colecção A Paleta e o Mundo da editora Ariadne (para mais informações sobre a obra ver post no blogue Correntes Artísticas e Movimentos Intelectuais).
Este livro reúne as comunicações apresentadas no colóquio «Transformações Estruturais do Campo Cultural Português, 1900-1950», realizado em Coimbra nos dias 21, 22 e 23 de Outubro de 2004.
De entre as comunicações então apresentadas, e agora publicadas, permitimo-nos aqui destacar a de Tiago Baptista, «Cinema e Nação. Os primeiros trinta anos de filmes tipicamente portugueses» e a nossa, «"Cinema como arte": Intelectuais, Cineclubes e a Crítica de Cinema», cujo resumo reproduzimos de seguida.
Em 1966, num artigo intitulado «O Cinema na Idade da Razão», publicado num número da revista O Tempo e o Modo dedicado à função da crítica, António-Pedro Vasconcelos defendia que o cinema, em Portugal, apenas tinha acabado de ganhar «cartas de nobreza», graças ao desenvolvimento de uma nova crítica. A história da crítica de cinema em Portugal, até então, corresponderia, segundo Vasconcelos, àquilo «a que Sophia de Mello Breyner chamava “a história das coisas que nunca aconteceram”».
Nesta comunicação, procuraremos, discordando de Vasconcelos, apresentar argumentos a favor de uma hipótese de interpretação da história cultural do cinema que não contemple apenas as questões estéticas, mas considere também as múltiplas relações do cinema com o social e o político. A saber, a de que a ruptura estética em que se inserem as afirmações polémicas de Vasconcelos só seria possível precisamente graças à concepção de cinema e de crítica que a antecedeu: a da geração dos cine-clubes.
De facto, embora a crítica de cinema dessa geração nem sempre tenha exprimido enquanto discurso valorativo, nem porventura o tenha feito com maior frequência, juízos sobre o valor estético e especificamente cinematográfico do objecto fílmico, ela contribuiu de forma decisiva para ultrapassar, como referia Vasconcelos, «a resistência dos intelectuais em reconhecer o cinema como fenómeno de cultura».
Distinguindo, assim, entre afirmação estética e afirmação cultural do cinema, mostraremos como os cine-clubes, surgidos em Portugal a partir de 1945, tentaram legitimar um objecto pouco valorizado e valorizante, procurando atrair de novo, depois do sonoro ter conquistado as classes médias e acabado com as pretensões artísticas das vanguardas modernistas, as elites intelectuais para o cinema.
Procuraremos, pois, demonstrar como, paradoxalmente, terá sido a geração que, segundo Vasconcelos, «passou constantemente ao lado do assunto falando de tudo menos de cinema», a tornar possível, a partir de finais da década de 50, a afirmação inequívoca, ainda que por oposição à concepção de cinema e de crítica anterior, do cinema como arte em Portugal.
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Bibliografia
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Homenagem a Fernando Gonçalves Lavrador (1928-2005)
Vai realizar-se, entre 10 e 26 de Fevereiro, no Teatro Aveirense, um ciclo de homenagens ao Eng. Fernando Gonçalves Lavrador, membro fundador do Clube Português de Cinematografia, mais tarde Cineclube do Porto, colaborador do Círculo de Cultura Cinematográfica de Coimbra e, depois, do Clube de Cinema de Coimbra, tendo também colaborado, mais tarde, no ressurgimento do Cineclube de Aveiro.
A iniciativa, a cargo da ADERAV - Associação para o Estudo e Defesa do Património Natural e Cultural da Região de Aveiro, contará com uma exposição fotobiográfica, patente no Teatro Aveirense até 26 de Fevereiro e com uma «conversa informal», subordinada ao tema «Eng.º Fernando Lavrador, Vida e Obra», que irá decorrer no café do Teatro Aveirense no dia 10 de Fevereiro, pelas 22h00.
Serão ainda exibidos, no Cinema Oita, os filmes A Nossa Música, de Jean-Luc Godard, e Hollywood Ending, de Woody Allen, a 11 e 12 de Fevereiro, respectivamente, pelas 16h30.
(Fonte: ADERAV)
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