
Transformações Estruturais do Campo Cultural Português, 1900-1950
Paulo Jorge Granja
Foi lançado no passado dia 3, o livro, coordenado por António Pedro Pita e Luís Trindade, que corresponde ao primeiro número da colecção A Paleta e o Mundo da editora Ariadne (para mais informações sobre a obra ver post no blogue Correntes Artísticas e Movimentos Intelectuais).
Este livro reúne as comunicações apresentadas no colóquio «Transformações Estruturais do Campo Cultural Português, 1900-1950», realizado em Coimbra nos dias 21, 22 e 23 de Outubro de 2004.
De entre as comunicações então apresentadas, e agora publicadas, permitimo-nos aqui destacar a de Tiago Baptista, «Cinema e Nação. Os primeiros trinta anos de filmes tipicamente portugueses» e a nossa, «"Cinema como arte": Intelectuais, Cineclubes e a Crítica de Cinema», cujo resumo reproduzimos de seguida.
Em 1966, num artigo intitulado «O Cinema na Idade da Razão», publicado num número da revista O Tempo e o Modo dedicado à função da crítica, António-Pedro Vasconcelos defendia que o cinema, em Portugal, apenas tinha acabado de ganhar «cartas de nobreza», graças ao desenvolvimento de uma nova crítica. A história da crítica de cinema em Portugal, até então, corresponderia, segundo Vasconcelos, àquilo «a que Sophia de Mello Breyner chamava “a história das coisas que nunca aconteceram”».
Nesta comunicação, procuraremos, discordando de Vasconcelos, apresentar argumentos a favor de uma hipótese de interpretação da história cultural do cinema que não contemple apenas as questões estéticas, mas considere também as múltiplas relações do cinema com o social e o político. A saber, a de que a ruptura estética em que se inserem as afirmações polémicas de Vasconcelos só seria possível precisamente graças à concepção de cinema e de crítica que a antecedeu: a da geração dos cine-clubes.
De facto, embora a crítica de cinema dessa geração nem sempre tenha exprimido enquanto discurso valorativo, nem porventura o tenha feito com maior frequência, juízos sobre o valor estético e especificamente cinematográfico do objecto fílmico, ela contribuiu de forma decisiva para ultrapassar, como referia Vasconcelos, «a resistência dos intelectuais em reconhecer o cinema como fenómeno de cultura».
Distinguindo, assim, entre afirmação estética e afirmação cultural do cinema, mostraremos como os cine-clubes, surgidos em Portugal a partir de 1945, tentaram legitimar um objecto pouco valorizado e valorizante, procurando atrair de novo, depois do sonoro ter conquistado as classes médias e acabado com as pretensões artísticas das vanguardas modernistas, as elites intelectuais para o cinema.
Procuraremos, pois, demonstrar como, paradoxalmente, terá sido a geração que, segundo Vasconcelos, «passou constantemente ao lado do assunto falando de tudo menos de cinema», a tornar possível, a partir de finais da década de 50, a afirmação inequívoca, ainda que por oposição à concepção de cinema e de crítica anterior, do cinema como arte em Portugal.
Paulo Jorge Granja - Transformações Estruturais do Campo Cultural Português, 1900-1950.  O Movimento dos Cineclubes - Correntes Artísticas e Movimentos Intelectuais  [Em linha]. Publicado a 8 de fevereiro de 2006. [Consultado a 7 de julho de 2009]. Disponível em
http://movcineclubes.weblog.com.pt/arquivo/transformacoes_estruturais_do_campo_cultural_portugues_19001950.html. ISSN 1646-2076.
8 de fevereiro de 2006 na secção Bibliografia | Enviar | Comentar (1) | TrackBack (0)
