
«Uma Conversa com Ernesto de Sousa»
Paulo Jorge Granja
A ler na revista electrónica Babel, editada por Leonel Moura, esta curiosa entrevista com José Ernesto de Sousa (fundador do Circulo de Cinema, director da revista Imagem e realizador do filme Dom Roberto) gravada por Moura em 1988, ano em que viria a morrer Ernesto de Sousa, «com o objectivo difuso de fazer um livro».
Leonel Moura avisa que «não se trata tanto de um depoimento autobiográfico, mas antes da minha própria interpretação de uma longa conversa». Deixamos aqui um excerto dessa conversa, com muitas incorrecções históricas pelo meio, a que havemos de voltar, e uma interpretação no mínimo curiosa acerca das relações entre o cineclubismo e o cinema novo.
Cogumelos
«O movimento dos cineclubes tinha um carácter de resistência ao sistema. Não era um braço público do Partido Comunista, como por vezes se pretende, mas era realmente uma resistência no sentido de fazer coisas. A partir dos dois ou três pioneiros, começaram a nascer por todo o país, tornou-se uma rede. Criaram-se como cogumelos. Ia a Sacavém ou a Pavia e bastava apresentar-me como cineclubista para virem logo os cineclubistas da terra ter comigo.
Fundei o primeiro do país, o Círculo de Cinema, muito antes do cineclube do Porto que também foi um cineclube universitário. Depois a polícia prendeu-nos porque pensava que fazíamos as circulares do Norton de Matos. Na tentativa de refazer o cineclube, apercebi-me que tinha a ajuda de uma determinada organização política. Sem saber de nada. Organizaram-se quatro encontros nacionais de cineclubes. Os três primeiros foram inteiramente livres. O quarto já foi presidido pelo senhor do SNI, que resolveu arranjar um regulamento tipo para os cineclubes. Tentavam recuperar o movimento, antes que se tornasse uma coisa terrível para eles. Houve quem aceitasse esta ingerência, e outros não.
O primeiro encontro teve lugar em Lisboa. Foi muito interessante ver pessoas de todo o país convergirem para debater assuntos de organização e de cinematografia.
O cineclubismo representou um momento de cultura que precedeu, e não foi por acaso nem nada que não se tivesse previsto, a eclosão de um cinema novo.
O filme D. Roberto é um pouco separado do resto. Os outros cineastas tomaram caminhos diferentes. Mas é certo que o cinema novo estava no horizonte e os cineclubes foram a sua base.
O cineclubismo começou a diminuir a sua importância quando as autoridades passaram a tentar controlá-lo. Mas também, porque o objectivo principal profundo, embora não explícito, era atingir uma autonomia cinematográfica em Portugal. Quando se começaram a fazer filmes diferentes dos que então se faziam, essa autonomia foi finalmente conseguida [...]».
Paulo Jorge Granja - «Uma Conversa com Ernesto de Sousa».  O Movimento dos Cineclubes - Correntes Artísticas e Movimentos Intelectuais  [Em linha]. Publicado a 15 de dezembro de 2005. [Consultado a 10 de fevereiro de 2008]. Disponível em
http://movcineclubes.weblog.com.pt/arquivo/uma_conversa_com_ernesto_de_sousa.html. ISSN 1646-2076.
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